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Sobre a necessidade de um ''manifestódromo''
Miguel Pina e Cunha
As pessoas têm o direito de se indignar e de manifestar a sua indignação. Nada mais certo ou natural num país onde todos passamos a vida a indignar-nos sem que muito resulte dessa indignação quotidiana. Os partidos e sindicatos têm o direito de organizar mega-manifestações para mostrar a indignação generalizada daqueles que representam. Correcto. As dificuldades económicas prenunciam uma vaga de manifestações. Por isso talvez valha a pena dedicar um par de minutos ao assunto.
Antes de mais, é necessário dizer que o direito à manifestação de uns com demasiada frequência ignora vários direitos dos outros. Nomeadamente o seu direito de poder trabalhar. Deixe-me explicar, caro leitor: a única vez de que me lembro ter chegado atrasado a uma aula desde há muitos anos resultou de uma manifestação. O caos que os manifestantes provocaram por toda a cidade era tal que o trânsito não transitava. O resultado é que o direito dos manifestantes me impediu de cumprir os meus deveres profissionais.
Já se sabe que as greves e manifestações só são eficazes se doerem. Nesse sentido, quanto mais confusão provocarem, melhor. Apesar disso, talvez tenha chegado a hora de conjugarmos os direitos mútuos e de permitirmos que os que se manifestam não perturbem os que querem ir à sua vida – designadamente trabalhar. A solução óbvia é a criação de um manifestódromo.
A proposta pode parecer bizarra e pouco democrática mas tem inúmeras vantagens:
• Se for bem desenhado, o dito pode ser multi-usos, revelando valências diversas incluindo pista de desportos motorizados, desfiles diversos, etc.
• Pode ser desenhado numa zona do interior, contribuindo pelo menos sazonalmente para contrariar a desertificação.
• Deverá ser dotado de um sistema de contagem de entradas que acabará de vez com a discrepância dos números apresentados pelas partes, que as desacreditam a todas.
Neste contexto, pode haver manifestações todos os dias. Pode ser estabelecido um calendário anual de manifestações e contra-manifestações rigorosamente quantificadas. No final do ano poder-se-á fazer o ranking das manifestações. A maior de todas terá como objectivo entrar no Guinness. A seguir, com a popularidade do local, poder-se-á criar um cluster turístico, pelo que convém que o manifestódromo fique perto de um lago – natural ou artificial. Políticos da América Latina visitarão o local e farão a sua versão tropical do mesmo. Mas este será sempre o original, o que garante turistas, divisas e postos de trabalho. Com um pouco de imaginação, turbas de manifestantes de toda a Europa passarão a fazer as suas manifestações em Portugal. Os agricultores franceses trarão as suas vacas e queijos. Os burocratas de Bruxelas dossiês e formalidades. Os contribuintes alemães as suas carteiras esvaziadas pela solidariedade trans-europeia. Os marxistas gregos os seus cocktails molotov. Os islamistas britânicos os seus ódios ao ocidente. Enfim, cada um trará aquilo que tiver.
Sem falsa modéstia, talvez possamos reinventar Portugal a partir desta simples ideia, criando não um mas vários manifestódromos. Uma rede deles. Associando-os aos clusters já existentes: rural no Alqueva, religioso em Fátima/Leiria, do património da humanidade no Douro. Portugal terá aqui um ponto de diferenciação por excelência. Michael Porter talvez venha a escrever sobre o assunto. Kim e Mauborgne usarão o exemplo do manifestódromo como ilustração recente de um oceano azul, misto de sambódromo e activismo político.
O mundo inteiro, em suma, vai caber neste novo Portugal plural. Portugal vai ser um país mais cosmopolita, mais diverso, mais tolerante. E eu vou poder chegar às aulas a tempo.
Artigo publicado originalmente no JORNAL DE NEGÓCIOS
Antes de mais, é necessário dizer que o direito à manifestação de uns com demasiada frequência ignora vários direitos dos outros. Nomeadamente o seu direito de poder trabalhar. Deixe-me explicar, caro leitor: a única vez de que me lembro ter chegado atrasado a uma aula desde há muitos anos resultou de uma manifestação. O caos que os manifestantes provocaram por toda a cidade era tal que o trânsito não transitava. O resultado é que o direito dos manifestantes me impediu de cumprir os meus deveres profissionais.
Já se sabe que as greves e manifestações só são eficazes se doerem. Nesse sentido, quanto mais confusão provocarem, melhor. Apesar disso, talvez tenha chegado a hora de conjugarmos os direitos mútuos e de permitirmos que os que se manifestam não perturbem os que querem ir à sua vida – designadamente trabalhar. A solução óbvia é a criação de um manifestódromo.
A proposta pode parecer bizarra e pouco democrática mas tem inúmeras vantagens:
• Se for bem desenhado, o dito pode ser multi-usos, revelando valências diversas incluindo pista de desportos motorizados, desfiles diversos, etc.
• Pode ser desenhado numa zona do interior, contribuindo pelo menos sazonalmente para contrariar a desertificação.
• Deverá ser dotado de um sistema de contagem de entradas que acabará de vez com a discrepância dos números apresentados pelas partes, que as desacreditam a todas.
Neste contexto, pode haver manifestações todos os dias. Pode ser estabelecido um calendário anual de manifestações e contra-manifestações rigorosamente quantificadas. No final do ano poder-se-á fazer o ranking das manifestações. A maior de todas terá como objectivo entrar no Guinness. A seguir, com a popularidade do local, poder-se-á criar um cluster turístico, pelo que convém que o manifestódromo fique perto de um lago – natural ou artificial. Políticos da América Latina visitarão o local e farão a sua versão tropical do mesmo. Mas este será sempre o original, o que garante turistas, divisas e postos de trabalho. Com um pouco de imaginação, turbas de manifestantes de toda a Europa passarão a fazer as suas manifestações em Portugal. Os agricultores franceses trarão as suas vacas e queijos. Os burocratas de Bruxelas dossiês e formalidades. Os contribuintes alemães as suas carteiras esvaziadas pela solidariedade trans-europeia. Os marxistas gregos os seus cocktails molotov. Os islamistas britânicos os seus ódios ao ocidente. Enfim, cada um trará aquilo que tiver.
Sem falsa modéstia, talvez possamos reinventar Portugal a partir desta simples ideia, criando não um mas vários manifestódromos. Uma rede deles. Associando-os aos clusters já existentes: rural no Alqueva, religioso em Fátima/Leiria, do património da humanidade no Douro. Portugal terá aqui um ponto de diferenciação por excelência. Michael Porter talvez venha a escrever sobre o assunto. Kim e Mauborgne usarão o exemplo do manifestódromo como ilustração recente de um oceano azul, misto de sambódromo e activismo político.
O mundo inteiro, em suma, vai caber neste novo Portugal plural. Portugal vai ser um país mais cosmopolita, mais diverso, mais tolerante. E eu vou poder chegar às aulas a tempo.
Artigo publicado originalmente no JORNAL DE NEGÓCIOS