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E você, iria trabalhar se ganhasse o Euromilhões

Miguel Pereira Lopes

Começo este meu texto com uma pergunta directa ao leitor: “Se por acaso herdasse o dinheiro suficiente para viver de forma confortável sem voltar a trabalhar, continuaria a trabalhar de qualquer modo ou deixaria de trabalhar?”. Não precisa de responder de imediato… pense sinceramente na pergunta durante o próximo minuto e depois reflicta no que o(a) levou a dar a sua resposta!
Os sociólogos Nancy Morse e Robert Weiss, ambos então na Universidade do Michigan, fizeram essa pergunta a mais de 400 homens norte-americanos no início dos anos 50 do século passado e constataram que 80% dos inquiridos afirmaram que continuariam a trabalhar mesmo que não fosse necessário do ponto de vista económico e material. Nas razões invocadas, os respondentes afirmavam que o trabalho os “mantinha ocupados”, que “tornava a vida mais interessante”, que “mantinha uma pessoa saudável”, que lhes dava “um propósito na vida e um sentido de concretização”, e até mesmo que proporcionava um “contexto de auto-expressão”. Estes resultados atestam bem que o trabalho cumpre mais funções na vida de homens e mulheres do que a mera função de “ganhar a vida”.

É verdade que o mesmo estudo mostrou que esta percentagem baixava ao longo da vida, sendo de 90% nos jovens ente os 21 e os 34 anos, 80% nos indivíduos ente os 35 e os 44 anos, de 72% entre os 45 e os 54 anos, e de apenas 61% nos últimos anos antes do momento então normal de entrada na reforma (55-64 anos). Mas curiosamente, voltava a subir para os 82% nos indivíduos com mais de 65 anos. Mesmo a maior proporção de pessoas que disseram deixar de trabalhar, se pudessem, após os 55 anos parece ser, contudo, um efeito normativo mais do que uma vontade verdadeira, a qual poderiam voltar a exprimir quando mais tarde eram confrontados com a real possibilidade de viver da reforma e sem trabalhar.
Alguns investigadores afirmam que esta “ética do trabalho” se tem vindo a perder ao longo das últimas décadas. Num artigo publicado na revista científica Academy of Management Journal, o investigador Robert Vecchio replicou o estudo acima citado cerca de 20 anos mais tarde e constatou que a proporção de indivíduos que afirmava agora continuar a trabalhar mesmo que não necessitasse financeiramente tinha descido para pouco mais de 70%, evidenciando um significativo aumento de 39% no número de indivíduos que deixariam de trabalhar caso tivessem oportunidade. E num artigo acabadinho de ser publicado no Journal of Applied Psychology, psicólogos americanos mostraram que no período entre 1994 e 2006, a proporção dos que optariam por trabalhar mesmo que não necessitassem (mesmo que lhes saísse a lotaria!) baixou para os 68,1%.
Não sabemos como responderiam os Portugueses a uma questão como esta. Mas talvez fossem ainda mais os que acham que deixariam de trabalhar... E isso é preocupante, principalmente porque os resultados de um trabalho exclusivamente em troca de um salário são mais medíocres e, acima de tudo, e mais lesivos para os próprios trabalhadores.

O trabalho para além das razões económicas significa que as pessoas identificaram os seus principais talentos e que os conseguem colocar ao serviço dos outros. Isto traz benefícios para todos, incluindo nós próprios. Mas identificar e cultivar esses talentos não é tarefa fácil. Implica uma acção deliberada de nós próprios e um papel determinante das lideranças nas nossas organizações. A “ética do trabalho” não é genética nem uma questão cultural incontornável. É uma possibilidade e um dever que cada um de nós, colaborador, team player ou líder, deve assumir para si e para a sua relação com os outros. Por isso, caro leitor, está na hora de deitar “mãos à obra”!
A parte mais optimista é que, da análise deste último estudo publicado no Journal of Applied Psychology, concluiu-se que as pessoas reportam um maior desejo de continuar a trabalhar por razões não económicas quando os tempos económicos são menos favoráveis, como acontece durante as crises económicas. E por isso, este é o momento em que podemos fazer a diferença para ajudar a restaurar a ética do trabalho. Este é o nosso momento!

Artigo originalmente publicado no Semanário SOL