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Liderança em tempo de crise
Miguel Pina e Cunha
O tempo de crise constitui um período rico para olhar o que se diz sobre a Liderança.
A razão é simples: os líderes ficam mais expostos durante os tempos adversos e a disponibilidade para os seguir aumenta.
Dois perfis de Liderança têm sido particularmente salientes durante os tempos difíceis, mas há outros...
Líderes Heróis
A literatura de liderança é quase uma colecção dos feitos de grandes líderes heróicos.
Em tempo de necessidade, os líderes heróicos não podiam deixar de marcar presença. Curiosamente eles estão desta vez do outro lado, isto é, do lado do Estado. Na Europa, Sarkozy assume o combate à crise enquanto por cá o primeiro-ministro Sócrates promete ainda mais do que a habitual protecção do Estado – prolongando obviamente a dependência da sociedade civil face ao mesmo. Nos EUA, a eleição opôs o herói testado em guerra ao arauto da esperança. Nos diversos casos prevalece a ideia do líder como salvador, a mais clássica das formas de entender a liderança.
Líderes Gananciosos
A outra figura que tem marcado presença central na discussão da era subprime é a do líder ganancioso. O texto de José Saramago no Expresso é o exemplo mais radical entre muitos dos que atribuem a crise ao comportamento de homens de negócios que se assemelham em tudo ao velho estereótipo: gordos anafados, fato de três peças, chapéu alto, charuto na mão, limusina à espera. A novidade agora é o golfe. De resto, o problema de hoje é, para os que continuam a sonhar com sociedades igualitárias, o mesmo que o de ontem: a cupidez do capitalista. Como se costuma dizer, todos os problemas complexos têm uma explicação simples e errada. Como a dos malditos capitalistas que deviam ir a julgamento, segundo o nobelizado escritor – já vão, nos EUA, quando violam a lei e são apanhados.
Líderes Cautelosos
Nem todos os líderes, porém, cabem no papel do herói ou do vilão. Norbert Reithofer, CEO da BMW, disse ao Financial Times em Outubro de 2008 que “o maior inimigo da BMW é o seu longo sucesso passado”. É muito difícil mudar uma cultura na qual as pessoas dizem: ‘Em 2007, os nossos lucros antes de deduzidos os impostos foram de 3,9 mil milhões de euros”. Esta humildade na apreciação dos efeitos corrosivos do sucesso é um activo relativamente escasso. E um sinal de sabedoria: os tempos bons prenunciam tempos difíceis, como agora se vai vendo.
Líderes Imaginados
Qualquer um dos tipos anteriores e dos outros não considerados aqui, cabe nesta categoria final: a dos líderes que resultam da nossa imaginação. Considerem-se as palavras de Philip Rosenzweig no seu livro The Halo Effect: “Quando os tempos eram bons, a ABB era uma maravilha New Age, com uma grande cultura, uma organização futurista, e um herói ao leme. Quando declinou, foi lembrada como tendo uma cultura complacente, uma organização caótica e um líder arrogante. A ABB não mudou muito – a diferença estava sobretudo nos olhos do observador” – a liderança mora no olhar que sobre ela projectamos.
Este tempo de crise tem permitido aos observadores verem aquilo que querem: uma crise sistémica séria – mas inevitável – na vida do processo competitivo, o regresso do Estado, um novo sinal do apocalipse capitalista, a evidência da cupidez dos exploradores americanos. Em tempos de mudança como este, cada um projecta imagens diferentes dos líderes. Certamente que cada uma das quatro janelas aqui discutidas diz alguma coisa sobre o processo de liderança. Muitos erros foram cometidos. Muitas lições do passado ficaram por aprender e muita coisa mudará. Um ponto no entanto parece certo. O mundo é feito de aprendizagens e erros, de humildade e de arrogância, de tempos bons e tempos maus. A economia de mercado espelha a vida tal como ela é, feita de pessoas melhores e piores, umas bem e outras mal-intencionadas.
Mas trabalha com a realidade e não com fantasias totalitárias que se recusam a aceitar que a imperfeição do mundo é parte da sua beleza.